Tarifaço sobre o café brasileiro: criatividade e trabalho; leia a coluna do tabelião André de Paiva
Os números dão a dimensão do problema. Estima-se que 76% dos americanos consumam café diariamente, sendo que mais de 30% do mercado é abastecido por grãos brasileiros.
- Por: André de Paiva Toledo
- 19/08/2025 18:29
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos contra o café brasileiro representa uma ruptura sem precedentes nas relações comerciais entre os dois países. Trata-se da aplicação de uma lei de emergência para demonstração de força, que acaba funcionando como medida de vingança contra o Brasil. Esse tipo de medida não é normal nas práticas do comércio internacional, mas, infelizmente, as consequências são reais e se projetam no longo prazo. Ainda que um futuro presidente norte-americano adote postura mais conciliadora, dificilmente o sistema internacional voltará a enxergar os Estados Unidos como parceiro confiável. A suspeita de imprevisibilidade já está incrustada e tem estimulado tanto o Brasil quanto outros países a diversificar suas estratégias econômicas e diplomáticas.
Os números dão a dimensão do problema. Estima-se que 76% dos americanos consumam café diariamente, sendo que mais de 30% do mercado é abastecido por grãos brasileiros. O setor cafeeiro, portanto, não é apenas um ramo de comércio exterior, mas um componente vital da economia norte-americana. O café responde por 1,2% do PIB dos Estados Unidos e gera cerca de 2,2 milhões de empregos, em setores que vão da importação à distribuição e ao varejo. Por razões climáticas, os Estados Unidos não produzem café em escala, o que torna a dependência das importações um dado estrutural.
Diante desse quadro, a imposição de uma tarifa de 50% parece um tiro no pé, pois encarecerá o produto para os seus consumidores, alimentando a inflação e ameaçando marcas como Dunkin’, Eight O’Clock Coffee, Folgers, Maxwell House e Starbucks. Não é à toa que associações do setor cafeeiro norte-americano já pediram formalmente ao governo que o café seja incluído na lista de exceções à medida de Trump.
Contudo, não há muita razão para acreditar que, no curto prazo, Trump diminuirá a pressão que ele próprio criou. Não se vislumbra ganho imediato em uma reunião com ele. Pelo contrário, seu discurso se alimenta da retórica de enfrentamento. Ainda assim, o Brasil tem instrumentos internacionais legítimos a utilizar. A escolha de levar a disputa à Organização Mundial do Comércio (OMC) mostra maturidade institucional e confere legitimidade à reação brasileira.
No plano interno, deve-se questionar nos tribunais norte-americanos a legalidade do tarifaço. Por mais poderoso que seja, nenhum governo pode agir fora da lei. A contestação judicial da medida de Trump pode abrir brechas jurídicas para identificação de abuso do instrumento. No Brasil, o mercado consumidor interno pode e deve ser aproveitado. Lembro de uma conversa com o Sr. José Maria Marimbondo, que relatou como as barreiras comerciais impostas em plena pandemia de COVID-19 o estimularam a investir na marca “Café Campos Altos” para o mercado brasileiro.
A experiência mostrou que a adversidade pode gerar oportunidades, fortalecendo a identidade local e beneficiando a economia regional. Esse caminho, combinado à diversificação dos destinos internacionais, pode reduzir a dependência de um único mercado e proteger os produtores brasileiros das oscilações políticas externas.
O tarifaço norte-americano contra o café brasileiro escancara não apenas uma disputa comercial, mas uma crise de confiança que ultrapassa fronteiras. Ao fragilizar a previsibilidade das relações internacionais, os Estados Unidos abrem espaço para que países como o Brasil busquem novas parcerias e fortaleçam mercados internos, reduzindo a dependência de um só destino. Porém, isso toma tempo.
Com criatividade e trabalho, as respostas podem transformar a pressão de um mercado consumidor em oportunidade em outros mercados consumidores, inclusive no interno, garantindo que o café brasileiro continue sendo referência, ainda que em um cenário global mais fragmentado e desconfiado.
